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Comportamento

O poder do perdão

Está aí um verbo difícil de conjugar. Porque alcançar esse ato de remissão não é simples, mesmo que sobre vontade. Se eu disser que perdoar é um ato de amor que liberta e traz bem-estar físico e emocional, você considera?

Rosana Faria de Freitas
Foto: Stock.Xchng
“Que atire a primeira pedra quem...” A frase deveria vir à tona sempre que nos sentimos em condições de julgar alguém. Pior: julgar e condenar. Duas palavras, diga-se de passagem, que nos afastam de uma terceira, o perdão. Pode reparar: quando você perdoa, mesmo que já tenha julgado e condenado no passado, é quase certo que está menos arrogante.

Tal tolerância nos permite compreender que todos erramos. Perdoar trata-se de um ato de humildade e generosidade, acima de tudo. “É caminhar através da dor, aceitando o outro como ele é: humano, e não divino, alguém que pode falhar”, pondera o psicoterapeuta Luiz Cuschnir, idealizador e coordenador do Gender Group, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, é fundamental enxergar a pessoa como um todo, separando a incorreção. “Ele cometeu um erro, não é o erro.”

MAIS AMOR, MAIS SAÚDE

Olha que incrível: para a psicanálise, saber perdoar é uma possibilidade psíquica diretamente ligada à aptidão amorosa. “Amar e, portanto, perdoar e/ou pedir perdão significa se preocupar com o outro, colocar-se no lugar, reconhecer que quem nos feriu também nos fez bem em outros momentos”, analisa Camila Flaborea, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Vale considerar ainda que o ato é importante para quem dá e quem recebe.

“Significa que você encara seu semelhante com compaixão e vê em si mesmo a humanidade que levou o sujeito ao engano. E se descobre com a capacidade amorosa não destruída pelo mal que lhe fizeram, o que é reconfortante.” E, diga-se de passagem, ajuda a enfrentar as próprias fraquezas, lidar com as perdas, exercitar a reflexão sobre suas atitudes e dos demais. Para o psiquiatra Jairo Mancilha, mestre e doutor em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e master training internacional em Neurolinguística e Coaching, o maior beneficiado é você.

“O ofensor provavelmente não está nem aí, seguiu seu caminho; e você lá carregando impressões ruins que fazem mal para a vida física e mental, produzindo substâncias prejudiciais à saúde como adrenalina, noradrenalina e cortisol, capazes de aumentar a pressão arterial e provocar envelhecimento precoce. A palavra ressentido diz tudo: a pessoa está sentindo de novo, presa ao passado.” Mas com o perdão vem junto elementos que beneficiam a circulação sanguínea e trazem bem-estar, como a dopamina e a serotonina.

VIVÊNCIA TRAZ TOLERÂNCIA

Se você está achando tudo lindo de se ler, porém difícil de aplicar, um alento: a capacidade de perdoar pode ser desenvolvida. “Com certeza, vem junto com o amadurecimento”, acredita Dorli Kamkhagi, psicanalista e terapeuta de casais, coordenadora do Instituto de Psiquiatria da USP. Em outras palavras, quem é maduro refletiu mais, viveu mais e por isso tolera mais. “Precisamos de uma boa dose de amor, segurança e humildade para chegar lá. Características que devem ser absorvidas na convivência e encontradas dentro de si por meio de um processo de autoconhecimento”, diz Camila Flaborea.

Triana Portal, psicoterapeuta pela USP, lembra que quem tem dificuldade em desculpar “tende a ser rígido e não se aprofundar nas relações porque não consegue confiar. A dor da mágoa aprisiona a alma”. Que tal? Por isso, tenha certeza: o perdão é altamente libertador. Você se dispõe a esquecer algo que causou dor. “Aquele trecho da sua história ficará no passado para que siga seu caminho”, reflete Dorli.

Você então se conecta com o que é saudável em sua vida, criando novas perspectivas para o futuro e trazendo qualidade para o presente. “Os sentimentos ruins nos adoecem e encarceram aquilo que muitas vezes já nem está mais em nossas vidas, mas continuamos alimentando-os.” Visualizou sua alforria? Deixe o tempo passar...

VOCÊ ESCOLHE SER FELIZ

Se você não consegue essa abnegação tão facilmente, fique atento para um perigo maior: colocar a culpa no outro pela sua infelicidade, criando uma razão para não sair do luto. “É importante que as perdas sejam entendidas como algo que necessita de novos significados”, ressalta Dorli. Nesse processo é essencial aprender a se perdoar e se transformar. Quando você não se concede o indulto, pode se torturar, infligindo inconscientemente a si mesma punições que podem vir na forma de distúrbios e doenças.

DIGA SIM AO PRESENTE

Recorra à origem da palavra: em latim, perdonare significa “deixar de querer mal a alguém responsável por um ato desagradável”. Difícil? Então pense que o real está aqui e agora. “Coloque-se no presente e perdoe. Assim, poderá seguir sua vida”, ensina Jairo Mancilha.

Outra verdade que merece reflexão: a dificuldade de perdoar não raro está associada a uma dor que é só sua. “A atitude do outro pode ter reavivado esse sentimento que, na verdade, sempre esteve ali. Localizar a origem da mágoa auxilia na compreensão do quadro: por que essa dor chegou e se instalou com tanta força?”, questiona Luiz Cuschnir.

O psiquiatra também lembra que o perdão pode ser só interno, ou do tipo que deve ser colocado para fora. “Há situações em que é preciso externar o ato. Se você não o faz, o sujeito continua se sentindo culpado e fica difícil restabelecer uma ligação.” Em outras ocasiões, quando não existe chance de reconciliação, a indulgência não necessariamente tem que ser exposta.

“De qualquer forma, você notará que o alívio tem a ver com você, é seu. Como se tomasse um banho revigorante. Vai olhar para frente e tocar sua vida de um jeito melhor”, diz Cuschnir. Enfim, está na hora de remover daí de dentro qualquer emoção negativa – raiva, mágoa, desgosto, tristeza – pela pessoa ou situação, e alimentar a compaixão, que a fará enxergar que somos todos imperfeitos e aprendizes. Afinal, a vida é ou não é uma escola?
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