Revista A Ana Maria Braga
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Comportamento

Mães modernas

Como as mães modernas se encontram – ou se perdem – em meio à dificuldade de dividir seu tempo entre filhos  e trabalhos

Cinthia Dalpino
Foto: Máximo Jr
Josilane dos Santos, mãe do João
Como diz o ditado: “Quando nasce um bebê, nasce junto uma mãe”. E é isso mesmo que acontece. Parece que a mulher de antes não existe mais, ela dá lugar a um novo ser que precisa defender sua cria. É instinto puro e simples. Mas depois de tanta transformação, como retornar à antiga vida? “Nossa sociedade tem pressa. Todos querem que a mãe volte a ser a mesma de antes, que emagreça, volte ao trabalho, se mostre esplêndida... O mundo poderá se transformar, mas necessitaremos sempre de nove meses para gerar, de outros nove para que comecem a se deslocar com autonomia e de longuíssimos anos para que sejam capazes de enfrentar o mundo sem a ajuda dos pais”, explica a psicoterapeuta familiar Laura Gutman, autora do livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra.

E esses “longuíssimos anos” acabam logo. São os famosos quatro (em alguns lugares seis) meses de licença-maternidade, que chegam ao fim para levar a mulher de volta ao trabalho. Mas esse retorno nem sempre é uma bênção. “As pessoas olham com cara feia se você sai no horário”, conta a jornalista Daniela Buono, que percebeu que não existiria uma maneira de flexibilizar o horário com a chegada das filhas e acabou deixando o emprego para abrir seu próprio negócio. Hoje, dona do site Cia das Mães, que incentiva o empreendedorismo materno, Daniela conclui que o preconceito do ambiente corporativo com as mães contribui para que as mulheres se sintam acuadas.

Pelo preconceito velado que sofrem na maioria das empresas, muitas mães caminham frustradas, carregando a maternidade como um fardo e culpando-se por estarem terceirizando os cuidados com os filhos enquanto trabalham em rotinas estressantes. Mas vale lembrar que a culpa não é boa companhia nesse momento “É importante lembrar que, além da questão financeira, que vai permitir o sustento da criança, trabalhar pode ser realizador para a mulher”, explica a psicóloga Cristina Toledano, que salienta que quantidade não necessariamente equivale a qualidade. “Não é a quantidade de horas com o bebê ou o volume de trabalho que determinam a qualidade da relação ou da realização.”

Como as mães têm enfrentado essa situação?

Viviane Lolis, mãe do Mateus, 5 anos, e da Amanda, 3 anos

A mulher atual não quer mais viver com o básico, limitada a cuidar do lar e dos filhos. Hoje ela se preocupa em poder proporcionar para a família mais lazer e melhores estudos. Eu me sinto refém do meu salário, de verdade! Consigo manter as crianças em tempo integral em uma boa escola e dou atenção a elas, mas ainda acho insuficiente o tempo que destino aos cuidados maternos. Reina o tempo todo a culpa de que algo está faltando. E por diversas vezes bate no peito a vontade de largar a profissão. Mas quando pondero que com isso vamos ter de viver com o básico e limitados com o que meu esposo ganha, desisto e sigo equilibrando a culpa. Eles aceitam a minha ausência goela abaixo, essa é a verdade! Gostam de estar na escola, curtem as atividades, mas sempre dizem que sentem saudades. Se meus filhos vão me cobrar essa falta mais tarde? Não sei! Faço essa pergunta a mim mesma todos os dias.

Josilaine dos Santos, mãe do João, 8 anos

O João veio naquele momento que julgava ser o pior da minha vida, quando tudo parecia deslocado. Havia apenas três meses que minha mãe falecera, eu e meu ex-marido estávamos a um passo do fim da nossa relação. Eu buscava um recomeço, começaria pela separação. Foi quando me vi grávida em um casamento falido. Mas não me abati, enxerguei nessa gravidez uma luz incrível e decidi levar adiante. Trabalhei até o momento exato que o meu filho decidiu vir ao mundo e foi complicado quando voltei da licença. Às vezes chegava a pensar que, se pudesse, o colocaria de volta em meu ventre, como forma de proteção. Nunca pensei em parar, tive uma infância difícil, meus pais trabalharam muito para criar os filhos, e sempre nos ensinaram que para ser ou ter algo na vida era preciso antes conhecer o trabalho e as privações. Não me sinto culpada porque sei que tudo o que faço é para garantir o melhor para ele no futuro. E sei aproveitar cada momento que temos juntos.

Érika Braga, mãe do Vinicius e da Manuela, 10 meses

Trabalho em uma multinacional, onde o ritmo de trabalho é alucinante. Desde que planejamos a gravidez, sempre fui o tipo de mulher que jamais havia pensado em parar de trabalhar. Para mim, seria perfeitamente possível conciliar as duas coisas. Se as outras pessoas conseguiam, por que eu não conseguiria? Isso até nascerem os gêmeos. Fiquei afastada durante cinco meses da empresa. Nesse período, cogitei deixar o trabalho e ficar em tempo integral com meus filhos, e foi difícil tomar uma decisão. Quando chegou a hora de voltar, uma surpresa: nesse meio tempo havia surgido uma política para mães que poderiam optar por fazer apenas meio período até que o bebê completasse 1 ano de vida. E assim sigo minha vida agora. Eles estão com 10 meses e eu trabalho quatro horas por dia. De manhã deixamos as crianças no berçário e ao meio-dia os levo para casa. Por enquanto estamos conciliando a vida dessa maneira. Mas faltam dois meses para que eu volte a trabalhar em período integral e nem durmo à noite pensando em como vai ser…

Camila Souza Torelli, mãe do Antonio, 1 ano

Quando descobri a gravidez, meu plano era claro: manter meu emprego em uma empresa farmacêutica veterinária, já que eu trabalhava 30 horas semanaisem casa. Meufilho iria para a creche perto de casa e tudo seria perfeito. Trabalhei até o parto e entrei de licençaem seguida. Porém, fui sacando que não era bem aquilo, logo que voltei da licença, fiquei em um “limbo”, esperando que se comunicassem comigo, até ser demitida oficialmente. Por um lado foi ótimo, pois ficaria com meu bebê. Por outro lado foi arrasador, eu me senti usada, jogada no lixo. Foi aí que resolvi usar a oportunidade para repensar minha carreira. Hoje, um ano depois do nascimento do Antonio, estou começando a dar aulas de idiomas. Sempre tive facilidade para aprender outras línguas, ler, escrever, interpretar textos e traduzir. Tem sido interessante ver que posso ter horários flexíveis, trabalhar perto de casa e ainda assim ter uma atividade que me oferece satisfação pessoal.

 

 
Foto: Máximo Jr
Janaina Medina e sua pequena Maria
Janaina Medina, mãe da Maria, 7 meses

Na minha cabeça, de forma muito decidida e definitiva, os planos no final da minha gestação eram: o ano de 2012 é da Maria. É para ela que eu vou viver, exclusivamente. Minha filha nasceu em setembro de 2011 e, desde então, pedi demissão do escritório. Vejo isso como uma decisão muito corajosa. Todos sabemos o quão duro é o mercado de trabalho hoje. Mas não tenho dúvida alguma de que fiz a escolha certa. Acompanhar o crescimento, o desenvolvimento, a rotina... Não tem preço! Porém, como a vida sempre nos mostra que nossos planos, às vezes, tomam outros rumos, comigo não poderia ser diferente. Sendo arquiteta, posso projetarem casa. Eé isso que está acontecendo. Estou com dois projetos em andamento e uso, sempre, a madrugada para trabalhar. Maria dorme por volta de 23h30, acorda às 9h, mama e dorme até às 11h30. Ou seja, eu trabalho até umas 4h da manhã e “durmo” até as 11h. E está dando supercerto! Não me sinto 100% fora do mercado de trabalho e também continuo dedicada à minha pequena!

O outro lado

Thamires Carini, 21 anos, filha da Marinalva

Até ficar grávida dos meus irmãos, minha mãe trabalhava fora. Por serem gêmeos, ela parou de trabalhar e depois de três anos engravidou novamente de mim. Quando completei sete meses, ela voltou a trabalhar e eu ficava em casa com minha tia ou minha avó. Foi aos 2 anos que comecei a ir para a escolinha. Nunca tive problemas em ficar em casa sem minha mãe. Desde pequena sempre fiz muitas atividades: era balé, natação, judô… Acredito que por ter o tempo todo ocupado, e com a presença de meus irmãos, não me sentia só. Além disso, algo que minha mãe nunca deixou de fazer foi nos levar e buscar do colégio. Na maioria das vezes ficávamos esperando ela até uma hora depois do horário. E quando reclamávamos, minha mãe dizia: “Venho quando consigo, às vezes me atraso, mas estou aqui”. Lembro também que quando eu ficava doente ou passava mal, o colégio ligava para que ela fosse me buscar. Ela sempre pedia para falar comigo e dizia: “Você está muito mal mesmo? Só vou se você não estiver aguentando. E aproveita e já avisa que seus irmãos vão embora também, porque não dá para ficar indo e voltando do colégio”. Ela sempre dizia que mulher tem que ser independente e ela estava fazendo isso para que eu aprendesse a ser assim. Acredito que essa “ausência” dela me deu independência. Se estava com fome, fazia lanche (lembro de eu colocando um banquinho no fogão para cozinhar). Quando for mãe, pretendo fazer o mesmo, pois não é porque somos mães que perdemos o direito de fazer ou conquistar aquilo que desejamos. A ausência não significa falta de amor e carinho. Na verdade, até como nos relacionamentos amorosos, isso torna os momentos juntos mais preciosos.

DÁ PARA ENCONTRAR O EQUILÍBRIO

A psicóloga Cristina Toledano, especialista em coordenar grupos de mulheres no pós-parto, enumerou algumas dicas para levar de forma saudável as duas áreas da vida.

1. É importante que você se permita viver essa confusão de sentimentos. As duas dimensões, a do trabalho e a da maternidade, são importantes, e por isso merecem atenção. Só assim é possível identificar o que é fundamental e fazer as escolhas desejáveis e possíveis.

2. Ideais do que é ser uma “boa mãe” e uma “boa profissional” são ruins porque podem impedir ou dificultar que você faça escolhas próprias e criativas, geram culpas paralisantes, porque é impossível atingi-los, e você sempre se sentirá em dívida consigo mesma, com o filho e com os outros.

3. Aexperimentação pode fazer parte do processo. Às vezes um lado precisará ser privilegiado para ser conhecido. Foque no trabalho, sinta como você reage. Depois, faça o mesmo com os filhos. Assim, é possível, a partir da experiência concreta, buscar o equilíbrio.

4. Tenha clareza dos seus limites e os assuma. Nem tudo vai poder ser cuidado e executado à perfeição. Se forem coisas importantes que são difíceis de sustentar, peça ajuda para um familiar ou uma babá para cuidar dos pequenos, ou delegue algumas funções no trabalho.

5. Não desconsidere a culpa, mas cuide para que ela não a paralise ou que se arraste. A culpa é um sinalizador do que é importante ser cuidado por nós. Nesse sentido, ela pode ser nossa aliada, ao ser a força que nos leva às mudanças necessárias. A culpa que paralisa ou que se arrasta é fruto de idealizações e da dificuldade em reconhecer os próprios limites.

6. Trabalhar é cuidar e cuidar é trabalhar. É importante lembrar que, além da questão financeira que vai permitir (ou ajudar) o sustento da criança, trabalhar pode ser realizador para a mulher. Nessa hora, a máxima “mãe feliz, bebê feliz” faz todo sentido.

7. Qualidade vs. quantidade. Não é o número de horas com o bebê ou o volume de trabalho que determina a qualidade da relação ou da realização. Muitas vezes, menos horas mais bem-vividas com os filhos podem ser mais significativas e menos volume de trabalho pode significar mais produção.

8. Organizar e expressar. Se estiver difícil fazer uma escolha entre ficar em casa cuidando dos fi lhos ou voltar ao trabalho, uma listinha mental ou escrita de prós e contras de cada um pode ajudar bastante nessa reflexão.

9. Preservar-se das opiniões alheias pouco construtivas. O anúncio de uma possível mudança na vida deixa não só nós mesmas inseguras, mas as pessoas ao nosso redor também. Gente próxima ou os “palpiteiros” podem deixar esse processo de escolha pessoal mais sofrido e difícil, portanto, compartilhe apenas com quem possa ajudar.

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