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Comportamento

Gentileza gera gentileza

Atitudes simples, como desejar um “bom dia”, segurar a porta do elevador e oferecer o lugar no metrô para alguém que precise mais do que você, fazem toda a diferença! E não só quem recebe a gentileza é beneficiado. Quem a pratica também tem muito a ganhar, como você vai ver nesta reportagem

Erica Mitzutani
No final dos anos 1980 fiz uma viagem pela Europa cheia de malas, já que passaria alguns meses fora – naquele tempo elas não tinham rodinhas ou pelo menos não as que eram acessíveis no Brasil – e em várias cidades me deparei com escadarias sem _ m nas estações de trem e de metrô (me enganei achando que encontraria elevadores e escadas rolantes em todos os lugares do Primeiro Mundo). Como sempre ouvia falar que os europeus eram frios e reservados, achava melhor não pedir ajuda e me preparava para fazer várias viagens escadarias acima, carregando o que era possível em cada uma delas. Mas para minha surpresa, sempre surgia alguém pronto para ajudar. E não necessariamente homens fortes e jovens. Lembro especialmente de uma moça bem-vestida, de salto alto, que carregou uma das minhas malas mais pesadas. Conto essa história porque ela exemplifica algumas das características mais importantes da gentileza. Essa qualidade deixa marcas positivas em quem recebe a ponto de eu me lembrar tão bem de fatos acontecidos há tantos anos. Também é 100% altruísta: estranhos ajudam estranhos sem expectativa de ganho pessoal. Quem carregou minhas malas não esperava nenhum tipo de retorno além de um “muito obrigada” – fosse na língua que fosse! E é contagiante: a partir daí eu também passei a me oferecer para ajudar pessoas com objetos pesados.

A gentileza pode ter uma dimensão muito maior que a do exemplo cotidiano acima. A psicóloga Bel César, de São Paulo (SP), que pratica a psicoterapia sob a perspectiva do budismo tibetano, conta que recebeu um ensinamento muito importante do Lama Gangchen Rimpoche, mestre do filho dela, Lama Michel: “Sejam sempre gentis. A gentileza salva vidas. Eu estou vivo graças à gentileza das pessoas que me receberam quando eu fugi do Tibete para a Índia. Eu dependia do bom olhar de alguém que me desse acolhimento, comida, ajuda”. Essas palavras vieram em uma carta que ela recebeu no início dos anos 1990, quando se preparava para abrir um centro budista em São Paulo. “Nem sei se ainda tenho a carta, mas nunca esqueci o que ele escreveu.”

CORRENTE DO BEM

“Gentileza gera gentileza.” Essa expressão ficou popular no Brasil depois de ser gravada nas pilastras dos viadutos do Rio de Janeiro, nos anos 1980 e 1990, pelo andarilho José Datrino, conhecido como Profeta Gentileza. E vai direto ao ponto: ela forma uma corrente do bem. “A frase que o profeta popular pintou nas paredes é muito verdadeira, mas guarda em si o seu oposto. Ou seja, se é verdade que gentileza gera gentileza, o oposto também ocorre: a falta de gentileza gera a falta de gentileza”, comenta a autora do livro O Poder da Gentileza (editora Qualitymark), Rosana Braga, de Florianópolis (SC). “Gentileza é um modo de agir, um jeito de ser, uma maneira de enxergar o mundo. Ser gentil, portanto, é um atributo muito mais sofisticado e profundo que ser educado ou meramente cumprir regras de etiqueta”, explica Rosana, que é jornalista de formação e dá palestras em todo o País sobre relacionamentos e comunicação.

Embora possamos (e devamos) ser educados, a gentileza é mais do que isso, é uma característica diretamente relacionada ao caráter, aos valores e à ética, de acordo com a estudiosa do tema. E, diferentemente do que muita gente pensa, ser gentil não é igual a ser bobo e dizer sempre “sim”. “Pelo contrário, é reconhecer seus próprios limites e os limites do outro. É saber se colocar, falar com autenticidade, sem ser parcial ou hipócrita. É possível dizer “não” sem magoar as pessoas, desde que seja usada a gentileza verdadeira.”
Bel César escreveu vários livros sobre emoções, entre eles, O Sutil Desequilíbrio do Estresse e O Livro das Emoções (ambos pela editora Gaia). Ela lembra que só conseguimos ser gentis com os outros quando somos com nós mesmas. “Quando você se olha no espelho e vê que está acima do peso ou que começaram a surgir os sinais de envelhecimento, como você se trata? Diz para você mesma: ‘Existem várias providências para lidar com essa situação e eu vou tomá-las’, ou ‘Como estou velha ou gorda, que horror!’?”, pergunta Bel. Sentir-se próxima de si mesma não é uma atitude egocentrada nem egoísta, mas sim uma forma de autoconhecimento. “Quanto mais estivermos à vontade conosco, menos reativas seremos. Em outras palavras, mais serenas para lidar com as reações alheias, por mais agressivas que sejam”, diz. Alguém esbarrou em você na rua ou deu uma fechada no seu carro? Você pode respirar fundo e seguir em frente ou xingar, fazer um escândalo. O problema é que a raiva acaba se voltando contra você: o coração acelera, o sangue sobe à face, a irritação toma conta. “Quem sabe ser gentil consigo mesma sente menos raiva e se estressa menos”, garante Bel.

Agindo de modo gentil, você pode desarmar o outro suavemente, sem ter de enfrentá-lo, como conta Rosana: “Certa vez precisava resolver uma questão burocrática em um órgão público. O clima no lugar era tenso: muita gente para ser atendida e poucos funcionários disponíveis. Em vez de reclamar em voz alta como muitos faziam, resolvi usar a gentileza. Quando chegou minha vez, a atendente estava irritada, falava de modo grosseiro.

Comecei a falar com ela usando um tom de voz firme, mas acolhedor. Ouvi tudo o que ela dizia olhando nos olhos dela, como se estivesse dizendo que ela podia ficar tranquila, que ia dar tudo certo. Foi incrível a transformação. E não foi só o humor que mudou. A disponibilidade que ela demonstrava, o modo como se movimentava para resolver meu problema, tudo fluía perfeitamente. Ao terminar, ela me disse: ‘Obrigada por ter sido tão compreensiva comigo’. Saí de lá feliz e com meu problema resolvido”. A vida apressada, atribulada, estressada nas metrópoles nos leva a crer que a gentileza vem sendo deixada de lado, que é algo supérfluo, quando, na verdade, essa qualidade pode abrir portas. “A gentileza muda o rumo dos conflitos, facilita negociações, transforma humores, melhora as relações, enfim, propicia inúmeras vantagens tanto na vida de quem é gentil quanto na de quem se permite receber gentilezas”, diz Rosana, lembrando que até no meio corporativo ela tem sido valorizada. “As empresas têm preferido, cada vez mais, profissionais dispostos a solucionar problemas, favorecendo as conciliações.”

FELICIDADE PURA

Uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, demonstrou que a gentileza também pode nos deixar mais felizes. Sonja Lyubomirsky, coordenadora do estudo, pediu aos participantes que praticassem ações gentis durante dez semanas. Ela verificou que a felicidade das pessoas aumentou nesse período – independentemente de quem recebeu ajuda ser próximo ou desconhecido dos voluntários do estudo.

Ser gentil também faz bem à saúde. Estudos constatam que as pessoas solidárias têm menos probabilidade de sofrer de doenças crônicas, e seu sistema imunológico tende a ser mais forte. Uma explicação para isso é que talvez essa qualidade ajude as emoções, o que causa impacto positivo sobre nosso bem-estar. “As pessoas que conseguem praticar a gentileza, mesmo que em pequenas doses, são menos tensas e, por isso, o sistema imunológico delas se mantém mais forte, afastando as doenças. Por outro lado, quem vive estressada e ansiosa tem maior probabilidade de doenças físicas e emocionais, como enxaqueca, alergias, hipertensão, diabetes, doenças do coração, disfunções sexuais, pânico e depressão”, fala Rosana.

Depois de ler esta matéria, repita: será que a vida precisa ser uma guerra? Ou pode ser mais suave, tranquila? Essa é uma decisão que cabe a cada uma de nós. Como vimos aqui, a gentileza é uma opção: é uma atitude que adotamos e faz diferença na nossa vida e na dos outros. Que tal praticá-la?

 
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