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Comportamento

De bem com o ócio

O tempo para fazer nada pode ser bem estimulante

Bianca Donatto
Ilustração: Erica Mizutani
Viver o tempo todo sob pressão limita o repertório, mina as ideias e fragiliza a saúde. Mais do que prazer, entregar-se ao relaxamento e ao ócio reforça a criatividade e nos ajuda a vislumbrar algo que vira e mexe perdemos de vista: aquilo o que somos ou desejamos ser, de verdade.

Quem já assistiu a algum episódio do seriado americano House, certamente se recorda de momentos assim: depois de ser apresentado a um caso extremamente difícil, o médico Gregory House discute o problema com sua equipe, que fica em polvorosa atrás da solução.

Muitas vezes, enquanto todos os outros especialistas envolvidos estão discutindo os sintomas, consultando a literatura e fazendo exames clínicos, House simplesmente se afasta de toda aquela tensão. Lá está ele, falando sobre a ex-namorada com seu melhor amigo, tirando um solo de guitarra, dando uma volta de moto ou brincando com uma bolinha de tênis quando... tcharã! Tem uma ideia brilhante e finaliza o impasse com maestria.

E não é só na ficção que isso acontece. “As grandes invenções e descobertas da humanidade partiram de momentos de imersão, meditação e ludicidade”, garante José Clerton Martins, coordenador do Laboratório de Estudos sobre o Ócio, Trabalho e Tempo Livre (Otium).

Quem não se lembra, por exemplo, da história sobre a lei da gravidade? Dizem que Isaac Newton estava debaixo de uma árvore descansando e contemplando a paisagem quando viu uma maçã cair. A inquietação para entender que força levou a fruta para o chão, em vez de permiti-la flutuar ou subir, teria feito o físico mergulhar em estudos até chegar a uma conclusão.

No entanto, é bem verdade que está difícil encontrar quem se proponha essas pausas com regularidade. As pessoas parecem sempre correr contra o relógio e, nessa loucura, os momentos de ócio e lazer levam desvantagem, o que é considerado pelos especialistas um grande desperdício. “Nossa vida é constituída de diferentes áreas, tais como trabalho, família, comunidade, política, espiritualidade e ócio. O ser humano precisa estar em contato com todas elas para se desenvolver de fato e ser tudo o que pode vir a ser”, afirma a psicóloga Ieda Rhodem, de Porto Alegre (RS), especialista em ócio e potencial humano pela Universidade de Deusto, na Espanha.

Pausa produtiva

Em boa parte dos dicionários o ócio aparece como sinônimo para a preguiça, caracterizada pela inatividade física e mental e a falta de produtividade. Entretanto, o tempo livre do qual estamos falando, capaz de aumentar a criatividade, ocorre em situações que nos levam a entrar em contato com habilidades não utilizadas na rotina diária ou desenvolver melhor aquelas que já usamos.

O sociólogo italiano Domenico De Masi engloba tais experiências no que chama ócio criativo (outros estudiosos preferem ócio humanista ou construtivo): a ocupação do tempo com atividades gratificantes e prazerosas. Mas a principal característica dessas vivências é que a vontade deve partir de você. “Daí o ócio construtivo ocorrer, geralmente, em momentos livres de obrigações e compromissos, sejam eles profissionais ou sociais”, diz Ieda. Vale tudo o que traz riqueza cultural, reflexão, desafio ou troca. “O grande trunfo está em suspender o automatismo das ações e os preconceitos e demorar-se nos detalhes para ver, ouvir e sentir de verdade”, destaca José Clerton. Há quanto tempo você não faz isso?

 
Ócio, pra que te quero?

Os avanços tecnológicos, que trouxeram um monte de facilidades para nossa vida, deveriam agir como facilitadores dos momentos de ócio criativo. Porém, na prática, a coisa não é tão simples assim: a tecnologia nos mostra quanto podemos e devemos ser ágeis e nos deixa conectados o tempo inteiro a tudo – das notícias do mundo ao e-mail da empresa.

Que atire a primeira pedra quem nunca deu uma olhadinha na caixa de entrada do trabalho em pleno fim de semana! As razões para frear essa roda-viva e equilibrar a rotina com obrigações e prazeres são muitas, a começar pela saúde. Está comprovado que o excesso de situações estressantes afeta negativamente as defesas do organismo, facilitando o desenvolvimento de doenças.

Em contrapartida, fazer uma pausa e dedicar-se a algo realmente agradável nos ajuda a desligar a chave do estresse e seus efeitos nocivos sobre o organismo. E os benefícios não param por aí. Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (EUA) atestou que, quando estamos descansando ou focados em nosso mundo interior, o cérebro entra no que os cientistas chamam de “modo padrão” ou “default”. A atividade desse estado mental está ligada aos componentes do nosso funcionamento socioemocional, como o autoconhecimento, os julgamentos morais, a estruturação do raciocínio e a construção de sentido daquilo que nos rodeia. “Nessas condições fica mais fácil criar, inovar e encontrar soluções mais interessantes”, diz o neurocientista Emílio Takase, professor de psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.

Como já dissemos, é a oportunidade de desligar o piloto automático e deixar sua personalidade entrar em cena. “A maioria das atividades profissionais não desenvolve a sensibilidade e a criatividade, pois parte de tarefas racionais e repetitivas. Já as experiências de ócio construtivo vão na direção contrária a tudo isso, porque podem ser originais, autênticas, lúdicas e desafiadoras”, destaca Ieda. Já dizia o psiquiatra suíço Carl Jung: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

Dê tempo ao (seu) tempo

Desde cedo ouvimos que temos que trabalhar para crescer na vida e conquistar aquilo o que desejamos. No entanto, ninguém nunca nos diz que, para conhecer de fato nossos desejos, é preciso colocar o pé no freio, cultivar o diálogo interno e vivenciar alguns prazeres... Os especialistas sugerem alguns caminhos:

Aprenda a dizer não. Não se obrigue a aceitar todas as missões que lhe são dadas. Além da tensão, isso compromete a qualidade do seu serviço.

Não faça média. Às vezes fica impossível ir a todos os compromissos sociais. Em algumas ocasiões, queremos mesmo é curtir nossa própria companhia, o silêncio... Permita-se.

Conheça seus talentos e invista neles. E aqui não entram só as habilidades que você usa profissionalmente, mas aquele esporte que você gosta de praticar, as artes, os trabalhos voluntários...

Abra-se para o novo. Albert Einstein dizia que não há maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes. Verdade pura! Você pode começar mudando o trajeto que faz até o trabalho, escutando um estilo de música diferente, visitando uma exposição curiosa...

Habitue-se a fazer uma pausa de alguns minutos entre uma atividade desgastante e outra. Do contrário, temos a impressão de que a atividade foi contínua e o cansaço fica ainda maior.

Crie compensações. Se o seu dia foi muito cansativo ou se já sabe que terá que trabalhar no fim de semana, alivie a carga dando uma escapadinha para fazer algo que gosta.

Atente para a motivação intrínseca. O ideal é, pelo menos uma vez ao dia, fazer algo por desejo próprio, para balancear as demandas que vêm de fora o tempo todo e que temos que atender.

Desafie-se, mas na medida. A pessoa que é cobrada acima de suas capacidades sente ansiedade e preocupação. Entretanto, aquele de quem se exige pouco demais, sente marasmo e apatia.

 
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