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Comportamento

Coração valente

Adriane Galisteu fala sobre passado, presente e futuro

Ana Maria Braga
Foto: Christian Parente / Produção: André Corga
Como uma leoa. É assim que essa loira linda caminha pela vida. Não tem desafio que a faça correr. Nenhuma pessoa que ela ama vai ficar desamparada. A determinação e a força saem de cada poro de Adriane Galisteu. Impossível não perceber.

Ana Maria Braga (AMB): Você vai fazer 40 anos em abril deste ano. Com essa carinha de 20...

Adriane Galisteu (AG): Não sei se 40 é uma boa idade, não. Não fico me penalizando, mas queria poder voltar dez anos com a cabeça e a vida que tenho hoje. Eu ia fazer muita coisa diferente, ia ganhar mais tempo. Perdi tempo com pessoas que não mereciam De uma maneira geral, eu não tenho medo da idade, me orgulho dela. Você soube chegar nos seus 60 anos com elegância e beleza. Você usa as coisas a seu favor, mas não fica maluca. Porque a gente vê por aí as pessoas de 60 querendo ter 20.

AMB: Você pode ter 40, 50, 60, o que você sente dentro de você não muda nunca. Eu me sinto do mesmo jeito que me sentia aos 18 anos. Antigamente mulheres de 40 anos se achavam idosas.

AG: Eu ia na Sears com a minha mãe comer sanduíche e tinha um departamento de jovem senhora, onde iam as mulheres de 30, 40 anos. Eu me considero madura, mas tem uma criança dentro de mim. Com o Vittorio, então, voltei a ser criança. Durante muitos anos o Natal não existiu na minha vida, por causa de tudo que passei com meu irmão e meu pai. Então eu fazia uma ceia na minha casa para os amigos que não tinham família por perto no dia 18 ou 19 de dezembro. Depois eu viajava com a minha mãe e só voltava no dia 10 de janeiro. Eu pulava o Natal. Da chegada do Alexandre (Iódice) pra cá, eu passei a conviver com a família dele, que é italiana e faz Natal. Comecei a arrastar minha mãe com dificuldade. Com o nascimento do Vittorio, minha mãe é a primeira a organizar a ceia, falar de Papai Noel. Uma criança é capaz de mudar as pessoas.

AMB: Como foi a sua decisão de ter o Vittorio?

AG: Primeiro eu me senti segura de ter um filho com o Alexandre. Conheci o Alê há 12 anos. Me sentia segura do vínculo familiar que ele tem. Comecei a namorar o Alê com 36 anos. Quando fiz 37, pensei “já namorei, já casei”. E chega uma idade que só namorar não é mais o bastante, você quer um pouco mais. E um pouco mais pra mim é formar uma família, mesmo que esta família seja só dos dois, sem crianças. Eu achava que não ia ter filhos, a maternidade nunca foi latente na minha vida. De repente comecei a ver minhas amigas tendo filhos, aí ao mesmo tempo que eu queria, tinha medo, pensava se eu ia ser uma boa mãe como a minha, que foi uma leoa.

AMB: Você lembra quando olhou para o Alexandre de forma diferente?

AG: Olha, a gente se encontrava socialmente, mas sempre percebi que tinha um clima entre nós. Mas ele ou eu sempre estava namorando. Uma vez eu estava solteira e ele namorando. Eu estava saindo do carro e entrando em um restaurante e ouvi uma buzina. Era ele com um amigo. Ele abriu o vidro e falou comigo. Perguntei se ele estava namorando e ele disse que estava meio em crise. Ele perguntou por que e eu disse que ia chamá-lo pra jantar. Aí passou muito tempo e ele me ligou perguntando sobre o convite. Mas aí eu estava namorando. Um dia eu estava no Rio e encontrei um amigo dele correndo na orla. Perguntei se ele estava lá e se estava acompanhado. Liguei pra ele e chamei pra correr. Corremos na orla e o convidei pra ir ao show do Djavan no Canecão e foi lá que demos o primeiro beijo.

AMB: Como é a sua relação com os seus ex-namorados e ex-maridos?

AG: De todos que eu namorei só tem um com quem não falo. Com os outros eu converso, mas não são meus amigos de sair pra bater papo.

AMB: Num balanço, olhando para trás, o que você não teria feito de jeito nenhum?

AG: O casamento com o Roberto Justus. Não que eu tenha algum problema com ele. Foi uma pessoa que eu vi mudar; quando o conheci era só um publicitário, e se transformou nessa figura de hoje, um apresentador. Mas foi um casamento superprecipitado e desnecessário.

AMB: Ouvi uma declaração sua em que você dizia que no dia do casamento você sabia que não era. O que era, um sentimento?

AG: Me deu uma coisa, foi me caindo a ficha. Casar muda sua vida. Eu tinha saído de uma relação muito longa, cheia de traumas e decepções. Mas eu e o Roberto tínhamos olhares diferentes sobre a vida. Foi um aprendizado, porque depois dele eu percebi que primeiro precisa namorar, fortalecer a relação pra depois tomar a atitude de chamar 500, 600 pessoas para uma festa. Com o Alê a gente não queria casar nem ter filho. A gente começou a conviver, cada um na sua casa. Até que chegou o momento de assumir o namoro ou parar. Eu precisava construir a minha história com alguém, ter um vínculo.
Foto: Christian Parente / Produção: André Corga
AMB: Que mãe você é?

AG: Se eu for um terço da mãe que a dona Ema foi pra mim, eu vou ser uma baita mãe. Eu sempre falava que se eu tivesse um filho, ele teria que vir pra somar, não pra atrapalhar ou mudar a minha vida. Agora tudo mudou, é tudo em função do Vittorio. E sou tão feliz. Me descobri em uma vida muito diferente. Saio bem menos, prefiro jantar em casa com ele, e eu amava ficar até de madrugada em um restaurante. Saio de casa só pra trabalhar. Raramente vou ver um amigo. E estou amando isso.

AMB: Parece que você traçou uma meta e foi construindo: menina cantora, modelo, atriz, apresentadora. Nesse tempo, você fez uns dez programas. E agora, é mais um momento de mudança? Você esperava que o programa fosse acabar?

AG: Na verdade, eu quero aproveitar pra contar essa história. O Muito+ não foi pensado pra mim, era um programa que ia entrar na grade comigo ou sem mim. O meu diretor ligou e me convidou pra fazer o programa, com a liberdade pra dizer não. Perguntei como era e não achei que tinha a ver comigo. Ele falou que precisava de mim, mas se eu dissesse um “não” categórico ele ia entender. Desliguei o telefone e fiquei pensando, angustiada. Acabei topando o desafio. Eu não tinha nem uma semana pra me preparar pra estreia. Era um programa para durar três meses. Até pelo fato de durar pouco eu aceitei e era ao vivo, o que eu adoro. Comecei a fazer, a entender que era inofensivo, porque era uma fofoca já contada em site ou jornal que a gente comentava no programa. Aí decidiram manter mais três meses. Quando acabou não foi uma surpresa. Ele durou muito mais do que deveria ter durado.

AMB: E por que não deu o resultado que você esperava?

AG: Porque à tarde acho que não dá resultado. Não tem livre show à tarde. A Globo não põe um tostão à tarde. Põe Vale a Pena Ver de Novo, Sessão da Tarde, só enlatado. À tarde o público é flutuante.

AMB: Como você é no seu dia a dia profissional? Sei que você é mandona.

AG: Até nisso eu mudei. Nunca briguei na Band, nunca discuti. Depois de uma idade entendi que não dá pra eu escolher, tenho que trabalhar. Na Record eu punha a mão na massa. Lá eu montei a minha equipe, discutia, fazia reunião de pauta todos os dias depois do programa, levava a equipe inteira no fim do ano para uma confraternização. Era um trabalho que a gente errava junto, acertava junto, pedia para o bispo quando preciso. Uma vez teve um corte grande na Record e falei pra cortarem do meu salário e não mandassem embora ninguém da equipe, porque eu sabia que cada pessoa era importante para o programa ir ao ar com aquela qualidade. Tenho muito orgulho do É Show. Ganhei prêmios com ele e vendia muito. Tenho muito carinho até hoje. Ali foi onde entendi o que era lutar pelo ibope, que de repente o que a gente gosta não é o que o pessoal que está em casa gosta. Fui fazer pesquisa da minha imagem.

AMB: O que te fez deixar a Record e ir para o SBT?

AG: Porque eu trabalhei na Record por muitos anos e é muito mais gostoso trabalhar com a liberdade que se tem na Record do que com o jeito do Silvio Santos. E olha que eu fui avisada. Mas ele veio aqui em casa em uma madrugada, ficou horas falando. Eu ficava inebriada, pensando “o Silvio Santos está aqui”. Eu nem escutava direito o que ele falava. Fiquei pilhada, porque acho ele gênio. Me encantei também pelo número de zeros que ele pôs na minha frente.

AMB: Era muito mais do que você faturava na Record?

AG: Era, mas assinei no impulso. Ele veio já com o contrato pronto. Me arrependi no dia seguinte. E aí estreei às 2 horas da tarde superbem. Mas começou a mudar o horário. Mudei 18 vezes de horário em quatro anos. Ele alegava que não estava dando ibope, ou que não estava vendendo, e ia mudando. Fui entendendo que tinha feito burrada. Hoje vejo o Silvio muito mais calmo e penso se não deveria tê-lo levado menos a sério, me divertido mais com ele. Eu poderia estar em outra situação. Mas depois do SBT eu sou uma profissional melhor, por incrível que pareça. Eu cheguei à Band e relaxei. Se meu patrão mandou, eu vou fazer. E hoje sou uma mulher muito mais centrada, então quando vou fechar um contrato, o Alê lê, me dá opinião. Ele acompanha tudo: ensaio, estreia, leitura de texto, me manda flores a cada estreia. É a primeira vez que me relaciono com alguém que não compete comigo em nada. Eu tive muitos relacionamentos legais, mas sempre chegava um ponto em que minha vida profissional pegava.

AMB: Qual é a meta da Adriane agora?

AG: Eu quero ser líder de audiência. Fora da Rede Globo conseguir qualquer pontinho a mais é uma proeza e eu vi que é possível. A Hebe construiu uma carreira linda fora da Globo. Eu já tive bastante aprendizado, está na hora de pôr em prática. Eu tenho agora um programa que vai estrear em 2 de abril na Band. É um reality show, chamado Quem Quer Casar com o Meu Filho?, que vai durar três meses. E acabei de fechar um contrato com a Discovery. Eles vão lançar um programa que já tem em outros lugares do mundo, de paixões criminosas. São documentários dos quais eu faço a apresentação. E estou lendo duas peças, porque no ano que vem volto para o palco.

AMB: Mas o que você quer? Você faz tudo com paixão, se entregando, mas como você se vê?

AG: Se eu pudesse montar meu programa hoje, ele seria de auditório, ao vivo, adoraria ir para a guerra dos domingos. Gosto de programa de entretenimento e popular. Seria uma coisa para a família. Montaria minha equipe, faria um programa enxuto de duas horas mais ou menos.

AMB: Tirando profissionalmente, qual é o seu sonho?

AG: Eu sou tão realizada hoje como mulher, mas acho que mais um filho é um caminho legal, um só é muito pouquinho. Por mais que você fale que vai educar, você mima, a avó mima. Eu nunca suportei criança mimada. Agora olho pro Vittorio e vejo que paguei minha língua.

AMB: E você continua jogando tranca? Você é ganhadora?

AG: Não é só a tranca, é o gamão, palitinho, dominó. Tem joguinho, eu sento. E quero ganhar. O Ayrton gostava de tranca, e uma vez jogando com ele em Portugal comecei a perceber que enquanto eu ganhasse jamais acabaria aquele jogo. Hoje eu me vejo fazendo a mesma coisa. Se eu perder tem que ter mais uma rodada e a nega.

AMB: Eu soube que você fala com o Alê a respeito do Ayrton.

AG: O Alê é meu companheiro. Só não consegui fazer com que ele leia meu livro, mas acho que isso é um pouco demais. Mas quem conhece minha essência vai entender o que eu passei aos 19 anos de idade. Foi o momento mais difícil da minha vida, não só a perda do Ayrton, mas a confusão que isso gerou. Eu não sabia lidar com aquilo. E o meu irmão ficou doente na mesma época. Eu não tinha um real no banco. Eu ainda não sei administrar a morte e nunca vou saber, mas cada vez que perco alguém conhecido eu paro pra pensar que a vida pode ser tão simples com os amigos por perto.

AMB: Então vamos combinar assim: quando você tiver uma tranca em São Paulo, me ligue ou quando for para o Rio de Janeiro, fique na minha casa. Eu sinto muita falta de ter pessoas que a gente gosta de conversar, mas que vão ficando pelo caminho.
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