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Ações Sociais

Na batida da mudança

Por meio da arte, a Associação Educativa e Cultural Dida ajuda a melhorar a vida de mulheres e crianças baianas

Marla Cardoso
Fotos: Edson Ruiz
“Obrigado por nos ensinar a transformar as nossas baquetas em canetas para escrever o nosso futuro.” A frase estampada logo na entrada da sede da Associação Educativa e Cultural Didá, no Centro Histórico de Salvador (BA), é uma homenagem ao criador da iniciativa que, desde 1993, vem modificando a realidade de crianças e mulheres do Pelourinho e de bairros carentes da capital baiana. Antonio Luís Alves de Sousa, o Neguinho do Samba, reconhecido como o criador do samba-reggae e um dos fundadores do Olodum, morreu em 2009, mas antes de partir realizou dois de seus maiores sonhos: uma escola de música e o primeiro grupo percussivo brasileiro só de mulheres, a Banda Didá – a palavra Didá no idioma africano ioruba significa o poder da criação.

“O Neguinho viajava muito e contava que nos lugares por onde passava só via homens tocando. Então, idealizou um projeto com o objetivo de dar oportunidade para mulheres e crianças na música”, lembra a maestrina da Banda Didá e diretora da associação, Adriana Portela. O idealizador ainda tinha outra ideia que não conseguiu concretizar em vida: ensinar profissões, como marcenaria e artesanato, para idosos. “Ele tinha a preocupação de estimular o trabalho em conjunto e a consciência da vivência comunitária”, reflete Adriana.

DO PENSAMENTO À REALIDADE

Para dar forma ao sonho de possibilitar às mulheres do Pelourinho o exercício da arte, da cultura e da cidadania, Neguinho contou com um presente do cantor Paul Simon. Em 1990, o músico americano gravou com o baiano a música The Obvious Child, faixa de seu álbum The Rhythm Of The Saints, e como presente pela parceria ofereceu a Neguinho um automóvel importado. “Neguinho recusou o carro. Na época o Pelourinho estava entrando em reforma e ele mostrou para Paul um casarão antigo, indicando que ali ele criaria a sede de uma escola de música para a comunidade. Paul comprou o prédio e transferiu para o nome do Neguinho. Naquele momento nascia efetivamente a Didá”, recorda-se a diretora.

Passados quase vinte anos da inauguração da associação, hoje as cerca de 800 crianças e mulheres que frequentam o casarão anualmente, de segunda a sábado, têm acesso gratuito a aulas de capoeira, percussão, dança afro, teclado, violão, cavaquinho, sopro, canto, aula de inglês, espanhol e teatro. “Por meio dessas atividades conseguimos resgatar a autoestima dessas pessoas e educá-las. Hoje elas sabem de onde vieram, quais são as suas raízes”, comenta Adriana.

PARCERIA DURADOURA

As aulas são ministradas por professores especializados. O mais antigo é Paulo Muniz, o Paulinho do Samba, de 60 anos. Professor de bateria, ele está há 15 na Didá. Entrou na associação a convite do próprio Neguinho e diz ter perdido as contas de quantas pessoas ensinou. “Fico muito feliz ao encontrar ex-alunos que dizem seguir tocando, até profissionalmente”, conta, enquanto se prepara para mais uma aula.

Entre as alunas, a neta de Neguinho, Carla Andreza, de 10 anos, é a mais antiga da casa. Desde os 2 anos ela frequenta a associação. “Aqui eu toco, faço aulas de dança e capoeira”, enumera. Todos os dias depois da escola, Carla frequenta a Didá, onde também aprendeu a cultivar amizades e se divertir. “Gosto quando temos apresentações e podemos mostrar o que aprendemos nas aulas”, reforça.

Frequentemente a Didá é chamada para se apresentar em eventos. No dia 2 de julho, data em que é celebrada a Independência da Bahia, a banda participou das comemorações oficiais realizadas no Pelourinho.
Foto: Edson Ruiz
EDUCAÇÃO: PRIORIDADE

Além dos cursos diários na sede, a Didá desenvolve paralelamente outros projetos educacionais. No Família Mocambo Didá, por exemplo, os familiares das crianças são convidados a participar de oficinas de fabricação de instrumentos que serão utilizados nas aulas e apresentações do grupo. A associação também investe em curso de estética e beleza afro-brasileira e mantém um bloco afrocarnavalesco.

Nos desfiles de carnaval, o grupo não comercializa as fantasias. Elas são trocadas por alimentos não perecíveis e produtos de limpeza que são doados para instituições carentes de Salvador. “Os projetos visam ao estímulo a manifestações coletivas, respeitando as semelhanças e as diferenças”, explica Adriana. A associação mantém no Pelourinho uma loja de artigos, que tem as vendas destinadas para colaborar na manutenção da Didá.

CUIDADO PERMANENTE

Outra preocupação do projeto é o de acolher as crianças que freqüentam o casarão. Por isso, através do projeto Sòdomo – a palavra em iorubá significa cuidar como se fosse seu filho –, promove palestras educativas entre os jovens e passeios, além de se preocupar com a alimentação das crianças durante sua permanência na casa, servindo refeições.

Para manter toda essa estrutura, com cerca de 20 profissionais envolvidos, entre professores, coordenadores, serventes e cozinheiros, a Didá conta somente com apoio privado. “Não tem sido fácil a nossa manutenção. O Neguinho tinha muitos contatos e ainda estamos nos familiarizando com a burocracia de captação de recursos. São muitas contas para manter toda a estrutura. Só o nosso prédio tem três andares, mais contas de luz, água, telefone, funcionários... É um desafio”, desabafa Adriana.

Acompanhe e ajude

Rua João de Deus, 19, Pelourinho - Salvador, BA, CEP: 40025-080

Tel.: (71) 3321-2042

Site: www.projetodida.org

E-mail: adrianaportelapp@hotmail.com

 
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